“A Noite Americana”, de Truffaut, a maior declaração de amor ao cinema

noite

Tuffaut/Ferrand dirige Alphonse/Leaud e Julie/Bisset.

Ferrand é um cineasta às voltas com a produção de um longa-metragem chamado “A Chegada de Pâmela”. Neste filme dentro do filme acompanhamos os imprevistos que acontecem no set e as soluções encontradas para concluir o projeto a tempo de atender às exigências dos produtores como, por exemplo, furtar um vaso do hotel onde a equipe estava hospedada para compor o cenário ou achar um gato que saiba atuar. Durante as filmagens, os astros do filme, Alphonse (Jean-Pierre Leaud) e Julie (Jacqueline Bisset), começam um caso que não é levado adiante por ela. Com ciúmes, o jovem ator conta tudo ao marido da atriz, que invade o set de gravação, enquanto Alphonse, ator de ego inflado, ameaça abandonar o projeto — e este é só um dos problemas que Ferrand tem de enfrentar.

A Noite Americana (1973) é o filme mais metalingüístico já feito, que desvenda os segredos e detalhes nada glamorosos de produção. Vemos na história como um filme que, teoricamente, deveria ser uma obra de arte, pode se encaixar em um modelo de produção industrial, onde as funções da equipe são bem definidas e as ações coreografadas. Na verdade, a grande arte em se fazer um filme, Truffaut nos diz, está no espaço para improvisação, na força que move o cineasta para entregar seu produto e nos relacionamentos quase sempre cordiais entre a equipe, que não por acaso conferem ao cinema o status de ser “a arte coletiva”, na qual os envolvidos, movidos pela paixão pela sétima arte, são capazes de trocar relacionamentos por filmes, mas não filmes por relacionamentos.

A coreografia para se gravar uma grande cena.

O longa é marcante também como registro histórico dos anos 1970. O diretor interpretado pelo diretor Truffaut (sim, é deliciosamente confuso) faz um comentário sobre um possível “fim dos filmes do estúdio” que casa bem com as idéias a respeito de um cinema pós-industrial da contemporaneidade. Hoje, podemos dizer que não houve um fim, mas que existem várias formas de cinema convivendo em streamings, televisão e ainda em gigantescos complexos, que Truffaut, morto precocemente em 1984, não chegou a ver.

Nascido em Paris no ano de 1932,  o cineasta começou a frequentar cedo as salas de cinema. Ainda na juventude, ele conheceu o crítico André Bazin (que depois lhe deu emprego na revista Cahiers du Cinéma) e o cineasta Jean-Luc Godard, quando este ainda era um crítico sem papas na língua. Truffaut e Godard viam com maus olhos o cinema francês e produziam ácidas críticas contra as tendências da época. Eles defendiam o cinema de auteur, no qual os filmes deveriam carregar inúmeras marcas do diretor. Com um manifesto desses na cabeça, era momento de pôr as mãos na câmera e se arriscar. Sendo assim, em 1959, Truffaut lançou seu primeiro longa-metragem, Os Incompreendidos. Foi o divisor de águas. No filme, Truffaut transformou parte de sua vida em cinema. Na histórica década de 1960, houve uma cisão no cerne da nouvelle vague, a escola artística capitaneada pelos novos cineastas franceses: Godard juntou-se ao movimento esquerdista e passou a dedicar suas obras ate hoje à causa socialista. Truffaut, por outro lado, seguiu fazendo cartas de amor ao cinema como esse belíssimo A Noite Americana.

Nota: 9/10

Leia também:

Trailer:

 

Anúncios


Categorias:Cinema, Críticas

Tags:, , ,

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.

%d blogueiros gostam disto: