“Faça a Coisa Certa”, de Spike Lee, mostra que ninguém escapa da intolerância racial

Especial Spike Lee

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Em um dia que faz um calor infernal em Bed-Stuy, bairro do Brooklyn, onde a população é predominantemente negra, Buggin Out (Giancarlo Esposito) exige que Sal (Danny Aiello), o dono da pizzaria do local, troque as fotos penduradas na parede de seus ídolos ítalo-americanos por fotos de ícones negros. Quando tem seu pedido negado, o ativista passa a organizar um boicote mal-sucedido contra a pizzaria de Sal, já que o homem está ali há um punhado de tempo e, apesar da diferença racial, é bem querido pela população local.

A sinopse acima é apenas uma pincelada na trama principal que desencadeará o desfecho flamejante da história. Na verdade, o filme que colocou Spike Lee no mapa em 1989 concentra-se quase na sua totalidade em criar um mosaico de vários personagens do bairro com suas pequenas crônicas, mini-anedotas do cotidiano. Há o velho mendigo bêbado que vaga pelo bairro, os vagabundos que ficam na calçada o dia inteiro, o jovem com problemas mentais que importuna os vizinhos, o entregador de pizzas que conhece todo mundo no bairro (interpretado pelo próprio Lee), os policiais brancos ao mesmo tempo amigáveis e ameaçadores, os verdureiros sul-coreanos, os latinos fazendo nada da vida, etc.

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Todos vivendo numa harmonia tensa, na qual os insultos raciais, que vem de todos os lados e são rebatidos com a mesma intensidade, parecem o mal necessário para se manter a paz. Em uma sequência genial, Lee filma seus personagens olhando diretamente para a câmera e lhes oferece a oportunidade de botar para fora os maiores impropérios possíveis que poderiam dizer para ofender os outros, assim, o italiano xinga o negro, o negro o italiano, o sul-coreano o latino e por aí vai.

Evidentemente essa panela de pressão cheia de tensão racial esquentará o dia inteiro no calor escaldante  e irá explodir ao final, aproximando muito o filme das manchetes de jornais.  Sim, até mesmo as de hoje em dia, por que ao que parece desde o lançamento da obra, a humanidade está progredindo a passos largos rumo ao extremismo de ideias. Lee, tantas vezes taxado de chato pelo seu ativismo, poderia muito bem se contentar em mostrar a visão do rapaz negro, mas ele não é de botar panos quentes. O cineasta nos mostra que ninguém escapa de ser intolerante seja negro, branco, asiático ou latino. Alguns, porém, são mais vítimas que culpados e é daí que a revolta nasce. É preciso ter muito, mas muito auto-controle para fazer a coisa certa.

Nota: 10/10.

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Categorias:Cinema, Críticas

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