Desculpa, Chaplin, nós sentimos demais e pensamos muito pouco

Charlie-Chaplin-speech

A gente percebe que a discussão política no Brasil chegou ao nível mais baixo (num buñuelismo que quase encanta) quando é preciso explicar a um apoiador de certo candidato que 1) só podem votar para eleições no nosso país, brasileiros natos ou naturalizados com ou acima de 16 anos e 2) torturadores de partidos comunistas estrangeiros não podem votar, dado que não se incluem no perfil citado.

O dito cujo, que se informa pelo whatsapp, enviou-me uma foto do ex-presidente Lula (um presidiário) apertando as mãos de Hugo Chaves (um morto) como “prova” de que o primeiro estava pedindo votos ao segundo para a corrente eleição de 2018. Em um esforço de boa vontade, enviei a ele uma lista de links de sites como O Globo, El País, CartaCapital e Folha de São Paulo para provar que tal absurdo não fazia sentido, e não é que o cidadão critica os textos dizendo que parece coisa escrita por matéria de jornal de colégio?  Ou seja, ou seja, muito ou seja, o cansaço não está vindo mais da velha discussão de ideologia de esquerda e direita (quem dera fosse), mas de desinformação, manipulação e mentira.

Toda a situação descrita acima lembrou-me a sátira O Grande Ditador, de 1940, lançada no começo da Segunda Guerra Mundial, quando Charles Chaplin fez gato e sapato de Adolf Hitler e Benito Mussolini. O final do filme ficou conhecido pelo poderoso discurso pacifista de Chaplin, na pele do pobre barbeiro que é confundido com o ditador da fictícia República de Tomânia. Assista:

Há dois pontos que gostaria de destacar no discurso. Primeiro, quando ele fala “pensamos demais e sentimos muito pouco”. Infelizmente, Chaplin, em 2018, nós sentimos demais e pensamos muito pouco. Deixamos-nos levar pelas emoções, que não são necessariamente positivas, e perdemos a capacidade de reflexão, de raciocínio e de discernimento entre o real e o imaginário. Como? A resposta está na frase seguinte: “a aviação e o rádio nos aproximou. A natureza dessas invenções grita em desespero pela bondade do homem, um apelo à irmandade universal e à união de todos nós”. Atualizando esta parte podemos trocar facilmente aviação e rádio, novidades àquela época, por internet e a frase teria o mesmo efeito. Nós temos essa maravilhosa tecnologia nas mãos, e a usamos para quê? Espalhar mentira, ódio e ressentimento. Um verdadeiro desperdício.

Sei que não é culpa necessariamente das pessoas (embora, muitas vezes, ser tão estúpido não me pareça humano). O que Chaplin já havia percebido, e que percebemos agora, é que assim como na primeira metade do século 20, o mito estava criado, que o compromisso com a verdade e a ciência estava rompido, que a fantasia de união nacional estava assegurada, que a estratégia de desmascaramento das noticias falsas tem pouco efeito. Nos tomaram nosso bem maior, e o desvirtuaram, acabando assim com a tão sonhada união e irmandade universal. Transformaram-nos em patos e nos tiraram a nossa maior segurança: a verdade. Feliz 2019-2022.

 

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Categorias:Crônicas e Artigos

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1 resposta

  1. Amo seus posts, continue assim!

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