“Ninguém Pode Saber”: a beleza que nasce da crueldade

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Akira, Kyoko, Shigeru e Yuki vivem contentes com Keiko, a mãe irresponsável, porém carinhosa. O filme começa mostrando a mudança da família para um apartamento nos arredores de Tóquio. O único filho que a mãe apresenta aos vizinhos é Akira, por que ele é mais velho, e caso descubram que a mulher possui outros três filhos, eles serão despejados. Assim, Kyoko, a segunda irmã, chega a casa na calada da noite como uma fugitiva e as duas crianças menores, Shigeru e Yuki, são trazidas – o horror, o horror – dentro de malas.

Cada uma delas possui um pai diferente e nunca foram à escola. A existência das três crianças menores passa a ser escondida: elas não devem gritar ou sair na varanda por que ninguém pode saber que moram ali, até que um dia Keiko, que tem o hábito de dar umas sumidas, abandona de vez os filhos, deixando um bilhete, algum dinheiro e encarregando Akira de tomar conta dos irmãos menores. A partir daí, acompanharemos a desesperadora situação dos pequenos.

É incrível como o diretor japonês Hirokazu Koreeda filma Ninguém Pode Saber (2004) da maneira mais sensível possível, criando momentos de singela beleza em uma história horripilante de abandono parental – o longa-metragem é baseado em um caso real que, por incrível que pareça, consegue ser ainda mais cruel que a ficção. Koreeda consegue o feito por que o que importa para ele, mais do que a discussão social, são os pequenos momentos familiares que vão sendo criados pelas crianças e parecem insignificantes, como um biscoito compartilhado ou um cafuné, mas que dão sentido àquela vida infeliz.

É dilacerante, por exemplo, quando o cineasta filma as mãos da pequena Yuki. O esmalte vermelho de suas unhas, pintadas pela mãe, está descascado, quase sumindo, mostrando que os últimos resquícios da existência da mulher estão desaparecendo para sempre. Entretanto, mais devastadora ainda é a situação do filho mais velho, Akira, que carrega o peso do mundo nos seus ombros magrelos de 12 anos de idade. Ele precisa alimentar os irmãos, pagar as contas, cuidar da casa e vai, em certo momento, como era de se esperar, fugir para tentar viver uma infância normal. Porém, ao contrário de sua mãe, que na busca da felicidade pessoal abandona os próprios filhos da maneira mais egoísta possível, Akira está conectado com os irmãos, por que entendeu que o mundo é difícil e triste, mas ao menos ele tem aqueles momentos simples ao lado dos seus amados. São estes momentos que vamos lembrar para sempre, Koreeda nos diz. O diretor já havia discutido este tema mais profundamente em Depois da Vida (1998), no qual os personagens recém falecidos devem escolher apenas uma memória feliz, somente uma, para levar para o céu. E como é difícil, mas eu aposto que Akira, apesar de toda desolação, teria dificuldades de escolher o seu momento mais especial.

Nota: 8.5/10

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Categorias:Cinema, Críticas

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