Cinco ou seis filmes de Woody Allen que discutem a fascinação pelos famosos

Já falei muito de Woody Allen por aqui, mas ele sempre rende assunto, então vamos lá de novo. Um dos temas que volta e meia o cineasta gosta de discutir é a fascinação da grande massa pelos famosos em filmes como Zelig (1983), Memórias (1980), A rosa púrpura do Cairo (1985), A era do Rádio (1987), Celebridades (1998), Para Roma, com amor (2012) e Magia ao Luar (2014).

O ápice da originalidade de Woody foi atingido em Zelig, no qual o personagem-título se torna célebre, na primeira metade do século XX, por conseguir se transformar em que quisesse, um verdadeiro “homem-camaleão”. O longa tece uma crítica mordaz à cultura da imagem e a necessidade do norte-americano de ser sempre um vencedor, nem que para isso precise inventar ou adaptar sua identidade.

No genial Zelig, o homem-camaleão se adapta para ser aceito.

A mídia tem função fundamental na criação desses ídolos e Woody sabe disso. Os jornalistas têm papel de destaque nos filmes Celebridades e Para Roma, com amor. Indiretamente, ele também observa a evolução da indústria cultural através do tempo: desde os primórdios com o cinema em A Rosa púrpura do Cairo, com o rádio em A era do Rádio, os jornais impressos em Zelig; as revistas em Celebridades e a televisão e internet em Para Roma, com amor.

Nestes filmes, o fenômeno do culto às celebridades perpassa pelo que se chama de idolatrização e pode ser baseado em dois aspectos: na adoração ou admiração excessiva e a modelagem ou desejo de ser como o ídolo. Vejamos alguns filmes allenianos que abordam esse recorte:

  • Em Memórias, um cineasta (alter-ego de Allen) se vê encurralado pelo próprio público. Acostumado a fazer filmes de apelo popular e ser adorado por suas comédias, ele é rejeitado até mesmo por extraterrestres quando faz uma obra mais intimista.

Memórias: o cineasta atormentado pela própria fama.

  • Em A era do rádio: uma família ouve programas fascinantes pelo rádio e cada um, a seu modo, sonha com as vozes que saem de dentro do aparelho. Do outro lado, as estrelas do rádio também têm suas aspirações para a vida.

A era do Rádio: quando a idolatria vinha em ondas.

Em Celebridades, Allen aborada a futilidade

  • Pode-se perceber claramente a imagem do olimpiano na figura do astro interpretado por Jeff Daniels na obra metalingüística A rosa púrpura do Cairo, que é objeto de desejo de suas fãs. Allen, com sua perspicaz visão das coisas, faz o impossível: mescla dois mundos – o real e o ficcional – apenas para desmistificar o retrato idealizado que temos dessas pessoas. A partir do momento que o encontro da garçonete Cecília (Mia Farrow) com o ator se concretiza, a barreira da ilusão é quebrada e o encanto se perde. A mercadoria vendida através da celebridade é o sonho, a emoção e o sentimento. A função da mídia de massa – representada aqui pelo cinema – é alimentar e humanizar essa mercadoria e não há nada pior que a realidade para destruir as idealizações de Cecília.

Em A Rosa Púrpura do Cairo, quando o astro sai literalmente das telas de cinema, há uma distorção da relação celebridade/fã

  • Na história do homem comum (Roberto Benigni) de uma dos quatro contos de Para Roma, com amor, Allen estuda, através da narrativa absurda, um fenômeno contemporâneo chamado de celetóides, em que tipos sociais que chamam a atenção da mídia em um dia, caem no esquecimento no outro. Allen usa seu habitual sarcasmo para criticar a efemeridade desse tipo: o cidadão ordinário se vê cercado pelos tablóides, tem sua privacidade invadida, tira fotos, passa a ser galanteado e tem que responder coisas que não interessam a ninguém. Um status adquirido sem ter nada em troca a oferecer. Para completar o ciclo, o sujeito se torna uma sub-celebridade. Quando percebe que a fama está se esvaindo acaba aceitando fazer qualquer coisa em público para que sua notoriedade não desapareça. Assistindo ao filme é impossível não fazer um paralelo com os realities shows que empanturram a televisão e direcionam desconhecidos aos holofotes, hoje em dia.
to-rome-with-love-lg.jpg

Para Roma, Com Amor: é preciso ser algo para famoso?

Por fim, é interessante notar que em alguns longas, as celebridades fazem por merecer sua fama através de suas competências ou talento, como o cineasta habilidoso de Memórias, o ator carismático de A rosa Púrpura do Cairo e o elenco de astros em A era do rádio (ainda que neste último, alguns personagens busquem inutilmente a fama pela fama). Em outros, a visão do cineasta passa a acompanhar outro aspecto: a frivolidade que cerca as pessoas notórias. O diretor é extremamente ácido com os personagens de Celebridades e Para Roma, com amor e especialmente com a imprensa que favorece a futilidade em detrimento da importância de uma cobertura jornalística mais séria.

Anúncios


Categorias:Cinema

Tags:,

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.

%d blogueiros gostam disto: