“Um Homem que Dorme”: ensaio sobre a indiferença

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Em 1974, Bernard Queysanne filmou Um Homem que dorme, a respeito de um jovem de 25 anos, 29 dentes e três pares de meia que decide se deslocar da ordem social. O filme é baseado em um livro de Georges Perec, com roteiro do próprio, e mostra o tal Jovem (Jacques Spiesser) perambulado por Paris após a decisão de evitar qualquer contato desnecessário com a sociedade, incluindo aí os amigos da universidade e a família.

Desse modo, aos poucos, ele entra em um estado de letargia, solidão e neutralidade, destituindo tudo, tudo mesmo, de qualquer significado. Como na reprodução da pintura de René Magritte em sua parede, torna-se um homem sem espelhamento, de costas para si mesmo.

A obra tem formato de fluxo de consciência, sem diálogos, narrada brilhantemente em terceira pessoa por Ludmila Mikaël, com uma fotografia em preto-e-branco que transita entre a explicação necessária para entender o comportamento do jovem e a liberdade fugidia das imagens de Paris, que nos fazem entrar num transe onírico enquanto embarcamos na mente do rapaz.

Explicando assim, parece até que temos mais um exemplar de filme superficialmente pessimista. Quer dizer, olhando de cima, é isso mesmo: a história de uma pessoa que desistiu de viver, não através da morte, e sim da autoanulação, tornando-se o cidadão anônimo do mundo.

E ele não faz isso de modo ignorante ou hostil, mas quase poético: não regride ao analfabetismo, mas não privilegia a leitura; não anda nu, mas não pode-se dizer que seja elegante ou desleixado;  não passa fome, mas come de maneira calculada, apenas para sobreviver.

Por isso, creio que a sacada de Perec é mais profunda, diz respeito a viabilidade da existência humana. Se formos apenas um conjunto de átomos aleatórios no universo, existir realmente não tem nenhum sentido, mas se não significa nada por que então não abraçar a futilidade de nossa existência e, bem, apenas viver inutilmente, nem que seja através das regras sociais que criamos?

Afinal, o que o Jovem perceberá, tarde demais, ao observar todas as outras pessoas ao seu redor, é que, no fim de tudo, o cidadão comum e o cidadão indiferente terão o mesmo destino, mas o tolo feliz ao menos não perde-se por completo, por que nem bem tem consciência de sua identidade.

Nossa alucinação, como canta Belchior, deve ser suportar o dia-a-dia. Quando o Jovem derruba as pontes entre ele e o mundo – renegando a condição de sua própria espécie – ele quer atingí-lo, ferí-lo de alguma forma, mas somos tão insignificantes isoladamente que o mundo nem nota. É  triste, muito triste. São as condições do termo que a sociedade ocidental criou: você deve viver dormindo, mas de olhos abertos. Está ciente disso e quer continuar?

Nota: 10/10

Filme completo e legendado em português no Youtube:

 

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Categorias:Cinema, Críticas

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2 respostas

  1. Excelente filme e excelente a sua análise. Estou adorando as dicas de filmes. ☺️😀

    Curtido por 1 pessoa

  2. Após a leitura desta crítica brilhante não me resta saída a não ser assistir ao filme o mais rápido possível para que eu tire as minhas próprias conclusões.

    De qualquer forma parabéns pela excelência de suas ponderações.

    Abraço!

    Curtido por 1 pessoa

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