As origens do cinema: dos Irmãos Lumière, Mélies à Chaplin

 

Irmãos Louis e Auguste Lumière.

A história nos diz que não há apenas um único inventor do cinema. Nem mesmo o cinema surgiu como um produto acabado, pelo contrário, até o estabelecimento de uma linguagem própria, o meio de comunicação foi alvo de uma evolução constante. Entretanto, podemos considerar que Tomas A. Edison, nos Estados Unidos, e os irmãos Louis e Auguste Lumière, na França, foram expoentes da técnica que viria a ser hoje “a sétima arte”.

“As primeiras exibições de filmes com uso de um mecanismo intermitente aconteceram entre 1893, quando Thomas A. Edison registrou nos EUA a patente de seu quinetoscópio, e 28 de dezembro de 1895, quando os irmãos Louis e Auguste Lumiére realizaram em Paris a famosa demonstração pública e paga, do seu cinematógrafo”, conta Flavia Cesarino Costa no livro História do Cinema Mundial (2011).

Fotografia de um cinetoscópio em 1894, sendo operado por um funcionário de Thomas Edison.

É verdade que os irmãos Lumiére não foram os primeiros a fazer exibição cinematográfica nessas condições. Entretanto, a importância histórica dos franceses é reconhecida por sua argúcia comercial. Antes da criação do cinematógrafo, ambos eram empresários do ramo de placas fotográficas, com aptidão para marketing. Esta experiência prévia os conduziu a comercializar de forma bem-sucedida o cinematógrafo pelo mundo.

Enquanto na Europa os irmãos exibiam os filmes nos cafés de Paris, lugares que serviam de ponto de encontro e distração para sociedade francesa; nos Estados Unidos, Edison testava seus inventos nos chamados vaudevilles, a versão americana para os cafés. Em 1896, para frear a invasão dos irmãos em seu país, Edison controlava a venda e distribuição do quinetoscópio e, posteriormente, do vitascópio. As qualidades técnicas do cinematógrafo, porém, suplantaram os aparelhos de Edison e começaram a criar nos EUA um traço capitalista e industrial na produção de filmes, que predomina até hoje naquele país. Os Lumiére instituíram um esquema de fornecimento para os vaudevilles que disponibilizava uma cadeia, que ia desde o provimento dos filmes e seus projetores à contratação do operador das máquinas. Esse sistema durou nos Estados Unidos até a década de 1910.

Vaudevilles, onde Thomas Edison exibia seus inventos.

No que se refere à periodização dessas duas primeiras décadas do cinema, de acordo com Costa, pode-se caracterizá-la como “cinema de atrações”, que durou de 1894 à 1907, época em que os filmes eram mais demonstrativos com planos únicos e não se preocupam em construir uma história.  O cinema de atrações, por sua vez, pode ser dividido em duas fases: a predominantemente documental (1894 – 1903) e a predominantemente ficcional (1903 – 1907).

A fase predominantemente documental está, de certa forma, ligada ao exercício jornalístico, ainda que de forma acidental. Ao discorrer sobre a afinidade histórica entre o jornalismo e o cinema, Stella Senra afirma que “o aporte do jornalismo ao cinema pode ser constatado […] na adoção de formas habilmente exploradas pelo jornal – como o documentário e a reportagem” (1997, p.37). Vejamos: os filmes documentários desse primeiro tempo, chamados de variedades, eram filmados em locações externas, mostravam ao público cenas que eram reflexos da realidade, sem subjetividade alguma, que hoje seriam consideradas banais em qualquer obra audiovisual.

Exemplos clássicos são dois filmes dos irmãos Lumière: Arivée Du train em gare de La Ciotat (1895), que mostra a chegada de um trem à estação de La Ciotat e La sortie dês usines Lumière (1895), que documenta a saída de operários de uma fábrica após um dia de trabalho. Sem intervenções. Sem liberdades criativas.  Veja abaixo:

 

 

Contudo, o cinema de variedades contava com uma limitação: só podiam registrar eventos pré-marcados como funerais, desfiles e feiras. O que obrigava muitas vezes os diretores a mesclarem os fatos reais com intervenções encenadas para dar um sentido ao filme.

Dessa forma, em 1902, o mágico George Mélies adere à tecnologia dos Lumière e começa a criar filmes 100% ficcionais como Viagem à Lua. Historicamente, Mélies é o responsável por introduzir a vertente fantástica do cinema, em contraponto à vertente realística dos irmãos franceses (para conhecer melhor a história de George Mélies, recomendo assistir A invenção de Hugo Cabret [Hugo, 2011], no qual Martin Scorsese faz uma homenagem ao cineasta em forma de filme).

Viagem-à-Lua-em-cores.png

Cena colorizada de Viagem à Lua, de George Mélies.

A partir de 1903, os filmes ficcionais ganham mais espaço. Embora já tenham mais de um plano, são narrativas simples, de riso fácil. Eram exibidos nos nickelodeons, grandes depósitos ou armazéns adaptados para exibir filmes para o maior número possível de pessoas, em geral trabalhadores de poucos recursos. A graça desses filmes advinha das gags, a “mais antiga forma de narrativa completa no cinema, uma breve piada visual cujo desenvolvimento narrativo tem duas fases, a preparação e o desfecho inesperado”, de acordo com Costa.

O período do cinema de atrações predominantemente ficcional se encerra em 1907 e nos anos seguintes, o cinema passou por uma evolução técnica constante que atingiu um marco referencial em 1915, quando David Wark Griffith, ou simplesmente D. W. Griffith, lançou O Nascimento de uma Nação (The Birth of a Nation).

Cena do revolucionário O Nascimento de Uma Nação, de D. W. Griffith, hoje em dia considerado um filme racista.

Griffith queria simplesmente contar histórias. Para atingir seu objetivo percebeu que precisava dominar a linguagem e até propor coisas novas aos espectadores. Como conta Luis Carlos Merten, em Cinema: Entre a Realidade e o Artifício, o cineasta criou o flashback em The Adventures of Dolly, introduziu o plano  americano em For Love of Gold e desenvolveu o princípio da montagem paralela em The Lonely Villa. Com O Nascimento de uma Nação, ele criou o que não deixa de ser uma metáfora do nascimento do próprio cinema. Consolidou a revolução que já vinha desenvolvendo e estabeleceu um padrão de narrativa.

O ambicioso O Nascimento de uma Nação teve 1500 planos distribuídos pelos seus 165 minutos. Além deste, Griffith realizou 450 filmes, que estabeleceram a linguagem do cinema e foram responsáveis pela sistematização de técnicas de filmagem em Hollywood que, se antes era disseminada entre vários filmes, foi integrada a partir de então.

Em 1919, Griffith, para garantir independência artística e financeira, fundou a companhia de cinema United Artists, tendo como sócios os atores Douglas Fairbanks, Mary Pickford e Charles Chaplin. Entre 1906 e 1914, a carreira artística de Chaplin era voltada às apresentações teatrais. Após obter sucesso nos palcos com seu humor único, foi contratado pela Keystone Comedy Film Company e, em 1923, após passar por outras companhias, já havia trabalhado em 43 filmes, entre eles alguns que se tornariam obras-primas como O garoto (The Kid, 1921). Essa fase enraizou na memória do público o tipo mais conhecido de Chaplin: o vagabundo. François Truffaut, em seu livro O Prazer dos Olhos, ao falar do ator cômico, resume bem Chaplin: “o ator cômico escolhe ser seu próprio autor e seu próprio diretor e nos entrega tudo: sua aparência física, suas idéias sobre a vida e sobre sua arte, […] expõe-se cem por cento”(2005, p.63).

O Garoto, de Charles Chaplin (1921).

Merten considera Chaplin negligenciado quando diretores revolucionários são referenciados. De acordo com ele, os nomes mencionados se restringem a Grifitth, Serge Einseintein e Orson Welles, mas para o autor “os primeiros filmes de Chaplin, comédias de uma ou duas bobinas, ajudaram a criar e estabelecer os códigos da linguagem cinematográfica”. Para o cineasta Woody Allen, um dos discipulos de Chaplin, a genialidade dele reside na sua simplicidade: “não há nada de calculado no Chaplin […], o que ele tinha na cabeça era: Ei, isto aqui vai ser engraçado: vou pôr essa calça larga, esses sapatos grandes, um bigode e vou ficar com cara de tonto”, analisa em Conversas com Woody Allen.

Bom, este foi um breve resumo sobre as origena do cinema, que continuou a ter histórias fascinantes, afinal o cinema é História.

Referências:

  • TRUFFAUT, François. O prazer dos olhos: escritos sobre cinema.
  • SENRA, Stella. O último jornalista: imagens de cinema.
  • MERTEN, Luiz Carlos. Cinema: entre a realidade e o artifício.
  • LAX, Eric.Conversas com Woody Allen.
  • COSTA, Flávia Cesarino. “Primeiro Cinema”.In: MASCARELLO, Fernando (Org.). História do Cinema Mundial.
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Categorias:Cinema, Crônicas e Artigos

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