Especial Philippe Garrel: “Um Verão Escaldante” ou como são lindos (e tediosos) os burgueses

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Frédéric (Louis Garrel) é pintor e Angèle (Monica Bellucci) é atriz e sua musa. O casal está passando por uma crise conjugal, muito devido ao ciúme incontrolável do marido. Angèle, por sua vez, lamenta que a relação tenha esfriado a ponto de ele nem mesmo usá-la mais como modelo de seus quadros. Ela vai cair nos braços de outro enquanto Frédéric cairá em desespero.

Durante um verão, os dois recebem em sua casa, em Roma, Paul (Jerôme Robart), amigo de longa data de Frédéric, que vem acompanhado da nova namorada Élisabeth (Céline Sallette). Paul diz que é comunista e vive de pequenos papéis no cinema. Foi no trabalho, aliás, que ele conheceu a amada, que não se importa muito com sua simplicidade. O próprio Paul parece não se importar muito com seus ideais, aproveitando-se muito bem, obrigado, dos prazeres da vida burguesa que as férias na casa do amigo estão lhe proporcionando.

É complicado fazer uma sinopse dos filmes de Philippe Garrel. Na superfície parece que não acontece nada na história. São filmes de contemplação, nos quais as emoções prevalecem sobre qualquer trama pré-determinada. É um anti-cinema, por assim dizer. Ou talvez um cinema mais puro, por que deve-se observar bem as imagens, as sensações, as expressões no rosto dos atores e daí extrair algum sentido.

Em Um Verão Escaldante (2011), vemos os pequenos burgueses europeus e suas aflições. O que os aflige? Não as contas a pagar ou o ônibus lotado, mas o medo do vazio, da traição conjugal, do tédio. Nas entrelinhas, Garrel incluiu uma subtrama de imigrantes que sofrem repressão do governo, à época, de Nicolas Sarkozy. Frédéric e Paul fingem se indignar como os revolucionários passivos o fazem: observando sem agir e comentando uma matéria no jornal. Porque, se tiverem que se preocupar com estas questões “mundanas” serão obrigados a desviar a atenção de si mesmos, e o “eu” para eles é a coisa mais preciosa do mundo.

Como no seu filme anterior, A Fronteira da Alvorada (2008), o amor do protagonista Frédérique aqui é extremista, irracional, condição para a própria existência do indivíduo. Adoro a cena autoconsciente que um dos personagens, no final do filme, indaga para Fréderique: “como assim a sua vida não faz sentido sem ela?”, por que é que todo mundo está se perguntando a esta altura. Um casamento é mesmo uma condição sine qua non para a existência de alguém? Não existem questões mais urgentes no mundo para se desesperar como, sei lá, a crise migratória? Mas, enfim, não é um filme político, é mais um tratado de Garrel, que mostra que, às vezes, relacionamentos podem ser nocivos como o de Fredérique e Angéle, e outras podem ser pobres (no melhor sentido da palavra) como o de Paul  e Élisabeth.

Nota: 6/10

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Categorias:Cinema, Críticas

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