“Sierra Burgess é uma Loser”: como é um fardo ser positivo o tempo todo

sierra

Há uma cena interessante em Sierra Burgess é uma Loser. Sierra anda “invisivelmente” pelo corredor do colégio e antes mesmo que dois jovens vindo na direção contrária trombem nela, a garota se desvia. Por que esse é o espírito com que Sierra (Shannon Purser, a Barb de Stranger Things) foi criada pelos pais-gente-boa, que lhe ensinaram a não se deixar abater com as pedras no caminho e aceitar as coisas com inteligência e bom humor. Mas até quando as circunstâncias permitirão que ela, ou qualquer pessoa, continue assim?

Surfando na onda dos filmes adolescentes de mente aberta (como Com Amor, Simon), que ensinam lições de aceitação e respeito para seu público-alvo, temos aqui uma adolescente nerd e acima do peso considerado ideal, cujo único amigo na escola é o igualmente deslocado Dan (RJ Cyler). Claro que eles são vítimas de bullying de outros estudantes como Veronica (Kristine Froseth), cheerleader que se vangloria de ter 20 mil seguidores no Instagram. Sierra e Dan nem ligam para as ofensas, preferindo rir da estupidez de quem os ofende do que realmente aceitá-las como verdade.

Acontece que Veronica não é assim tão superficial como parece, há uma explicação para ela ser tão cruel com os colegas – além, é claro, de ser meio que a obrigação de uma cheerleader. A menina cresceu num lar abandonado pelo pai e foi criada pela mãe obesa (Chrissy Metz), que nunca se recuperou física e emocionalmente do abandono e desconta todas as frustrações na filha por meio de agressões verbais e psicológicas, obrigando-a a ter o corpo perfeito e ser bem popular para não ter o mesmo destino. Veronica devolve isso para o mundo, até cruzar o caminho de Sierra, que devido a um incidente de confusão de identidade, precisa da ajuda da garota popular para conquistar Jamey (Noah Centinro).

É esta a grande lição do filme, que ao contrário dos outros hits teens da Netflix, não é sobre paixonites adolescentes, ou melhor, é também sobre isso, mas, acima de tudo, é sobre o companheirismo entre Sierra e Dan e a amizade em construção entre Veronica e Sierra. Basta reparar que o nome do interesse amoroso de Sierra é apenas o quarto nos créditos.

Feito de contrapontos, o roteiro demonstra como é sufocante para a protagonista ser criada num ambiente tão positivista, apesar do mundo não o ser, que meio que a obriga a ser feliz. Coisa mais triste que felicidade forçada não há. A adolescente logo vai perceber que, às vezes, tudo que a gente precisa para seguir em frente é tomar um porre, chorar e reclamar de como a vida é um peso, os hormônios agradecem. Assim como também é um trunfo oferecer uma história, com passado, presente e futuro para Veronica, que a torna bem mais que a típica vilãzinha superficial.

O diretor Ian Samuels pareceu entender bem a confusão dessa fase da vida. Poderia apostar que ele estudou John Hughes – que se tornou o parâmetro para filmes adolescentes por ter os compreendido tão livre de julgamentos – para dirigir este aqui. O fato do pai de Sierra ser interpretado por Alan Ruck, o Cameron de Curtindo a Vida Adoidado, é uma grande pista para mim.

Nota: 7/10

Trailer:

 

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Categorias:Cinema, Críticas, Televisão

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