“Nascidos em Bordéis”: a transformação social através da arte

Aos 10 anos de idade,  a londrina Zana Briski entrou no estúdio fotográfico de sua prima e se encantou com o processo mágico de revelação de imagens na câmara escura improvisada.  A paixão de Zana pela fotografia a acompanhou na vida adulta e a levou até ao Bairro Vermelho, em Calcutá, na Índia, no final dos anos 1990.

No lugar miserável conhecido por seus prostíbulos, a fotógrafa pretendia fazer uma exposição sobre a vida das mulheres que dividiam a função de prostitutas e mães simultaneamente, mas mudou de foco, ao conhecer os seus filhos condenados ao mesmo destino desolador dos pais. A experiência de Zana é retratada no documentário Nascidos em Bordéis (Born Into Brothels: Calcutta’s Red Light Kids), de 2004, ganhador do Oscar de Melhor Documentário em 2005.

Briski, que dirige o filme ao lado de Ross Kauffman, de mera visitante passou a conviver e se envolver com a vida das crianças. A ideia era simples: os cineastas entregaram câmeras para os pequenos fotografarem tudo que lhes chamassem atenção. O resultado é surpreendente, as fotos, ainda que amadoras, transformam a realidade chocante em pequenos fragmentos místicos da vida cotidiana e podem ser conferidas aqui.

Além de aguçarem a expressão artística, aos poucos os diretores brigam pela educação das crianças ao tentar matriculá-las em um internato público. Nesse momento, a realidade do país entra em choque com o nosso modo de vida ocidental. O sistema de educação e a grande burocracia são assustadores até mesmo para um país como o Brasil, além do preconceito e a divisão social complexa existente, quase incompreensível para estrangeiros.

A mudança não consegue ser plena, alguns abandonam a fotografia e até mesmo a escola, por vontade própria ou forçados pela família. Seria ingenuidade acreditar que um filme fosse capaz de mudar uma cultura, um modo de viver, entretanto, é bonito ver possibilidades brotarem na vida de crianças desacreditadas como o pequeno e talentoso Avijit, a personagem mais interessante do filme, que no início do documentário diz “não há nada chamado esperança no meu futuro” e, ao final, totalmente transformado, viaja à Europa para apresentar uma exposição com suas fotos.

Como é possível ocorrer em filmes que tratam de temas tão delicados, Zana pode ser considerada tanto uma pessoa acima da média ou uma falsa moralista que usa a desgraça alheia para se promover. O fato é que, além de todos os julgamentos, o resultado é um estudo social interessante e bem comovente.

Trailer e outras informações:

 

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Categorias:Cinema, Críticas

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