Na era das fake news, “A Montanha dos Sete Abutres” permanece atemporal

 

ace-3Chuck Tatum (Kirk Douglas) é um repórter que possui uma dosagem perigosa de faro jornalístico e rebeldia, o que explica a sua demissão de diversos jornais. Os motivos vão desde processos por difamação até noitadas com a mulher do chefe. Meio desesperado, após ser demitido mais uma vez, acaba sendo contratado por um simplório jornal de Albuquerque, no estado americano de Novo México.

Um dia é designado pelo chefe Boot (Porter Hall) para cobrir uma pauta pitoresca. No condado vizinho de Los Bairros há uma tradicional caça às serpentes que movimento o local. A contragosto, mas sem nunca perder a pose, Tatum parte acompanhado do jovem auxiliar Herbie Cook (Bob Arthur), contudo nem mesmo chega à cidade. No meio do caminho, ao passar pela misteriosa Montanha dos Sete Abutres do título (álias, um título bem mais instigante que o original, em um raro momento de lucidez dos distribuidores brasileiros) descobre que Leo Minosa (Richard Benedict), um mineiro da região, está soterrado na montanha. É a chance que ele precisava para conseguir um grande furo de reportagem.

Tatum, além de noticiar o episódio, arquiteta um plano para prolongar o acidente durante sete dias, fazendo com que o homem permaneça mais tempo que o necessário nos escombros, ganhando assim a oportunidade de se tornar famoso e ser cobiçado por vários jornais. Essa premissa absurda é apenas o pontapé que o mestre Billy Wilder usa para discutir a profissão jornalística e a natureza humana, em A Montanha dos Sete Abutres (Ace in the Hole, 1951).

Os caçadores de Souvenirs Macabros

O diretor foi acusado de cinismo por parte da imprensa por causa deste filme, mas não recuou e rebateu chamando os jornalistas de “pequenos caçadores de souvernis macabros”. Disse isso porque, certa vez, presenciou um repórter se recusar a prestar ajuda a um homem atropelado para levar as fotos do acidente ao jornal Los Angeles Times antes do fechamento da edição, “mas se você diz isso em um filme, os críticos acham que você está exagerando”.

O cineasta, que não escondia a sua descrença pela profissão, parece depositar toda essa antipatia  no personagem de Douglas e também no inexperiente auxiliar Herbie Cook (Bob Arthur), que começa o filme transbordando inocência, mas que se deixa levar pelo calor da história e, ao final, é também transformado no tal caçador de souvenir macabro. Quem permanece com o senso de moral inalterado é o chefe dos dois, o precavido Boot, jornalista da velha guarda que soa como contraponto de Tatum: prefere continuar com a consciência tranquila ao invés de cavar pautas atrás de sangue.  É uma preocupação de Wilder, que prefere não jogar todos os profissionais no mesmo pacote.

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Um grande circo

Ao contrário de Boot, porém, a maioria das personagens do filme tem morais questionáveis. Nesse momento, a obra ganha pontos, ao evidenciar que Tatum é a apenas o arquiteto da desgraça do mineiro soterrado. Ora, se a imprensa se banha de sangue, de desgraça e de morte, quem participa e consome o espetáculo da indiferença também tem culpa. Veja o exemplo do xerife e do chefe da equipe de resgate que, à espera de reconhecimento político e visibilidade, pactuam com a tragédia idealizada pelo repórter. A esposa de Minosa (Jan Sterling), por sua vez, não pensa duas vezes em fugir do casamento infeliz, mas muda de idéia quando é convencida por Tatum a posar de companheira fiel, uma vez que a encenação traria vantagens lucrativas para o mirrado negócio da família.

E assim o circo segue (sem exagero, é montado um circo ao redor da montanha e desmontado ao fim, em uma metáfora explícita de Wilder), mostrando a peregrinação de diversas pessoas supostamente comovidas à antes amaldiçoada montanha para acompanhar de perto o acontecimento.

O filme é inspirado na história de Floyd Collins, um explorador de cavernas que, em 1925, ficou soterrado em uma montanha no Kentucky. Collins foi entrevistado enquanto ainda estava debaixo da terra e sua história rendeu ao repórter William Burke Miller, vejam só, um prêmio Pulitzer e reconhecimento para posteridade.

“A montanha dos sete abutres” foi o primeiro filme de Billy Wilder após o clássico absoluto “Crepúsculo dos Deuses” (Sunset Boulevard,1950). Não recebeu a mesma glória do antecessor e hoje, recebe a alcunha reducionista de “filme pra jornalista ver”. Reducionista por que, sim, a obra continua sendo um desmascaramento da imprensa em geral, mas, acima de tudo, é uma poderosa fábula sobre ambição, inveja, ressentimento e sobre como todos esses elementos convergem para uma grande tragédia. Ah, como queria que Billy Wilder tivesse vivo fabular sobre o jornalismo em tempos de fake news.

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Categorias:Cinema

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