Mini-críticas: três filmes brasileiros

(Procure assistir os filmes em alguma mostra ou nos canais públicos brasileiros. Se não houver como, é possível encontrá-los em torrents na internet).

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Arábia, de João Dumas e Affonso Uchoa (2018)

Arrepiante. Não há outro adjetivo para definir Arábia. Na trama, André (Murilo Caliari) é um adolescente meio abandonado pelos pais que vive na Vila Operária de Ouro Preto, próximo a uma fábrica de alumínio. Um dia, ele encontra o diário de Cristiano (Aristides de Souza, que se não tivesse lido que era seu primeiro trabalho no cinema,  diria que era ator nato), um operário que sofre um acidente. Numa decisão ousada, os diretores transformam o longa, que aparentemente era de André, em um road movie que narra as andanças de Cristiano pelo interior do Brasil, pulando de emprego em emprego, sem rima ou significado, até parar na cidade que sofreu o acidente. E mais importante: até parar na cidade em que sofreu uma epifania existencialista, que questiona o sentido da vida do trabalhador no país dos patrões. É um dos filmes mais melancólicos e poéticos que já vi, nunca panfletário, mas sempre pungente.

Nota: 9.5/10

Gabriel e a Montanha, de Fellipe Barbosa (2017)

A melhor qualidade de um filme é quando você tem ganas de entrar dentro dele (antes da tragédia acontecer, é claro). Assistindo Gabriel e a Montanha, dá vontade de colocar a mochila nas costas e sair andando para desbravar a Ásia e a África tal qual o rapaz do título, jovem de classe média alta que antes de entrar para uma prestigiada universidade americana, decide tirar um ano para rodar o mundo. Depois de dez meses de viagem e imersão no coração de muitos países, ele decide visitar o Quênia para escalar o Monte Mulanje, no Malawi, até a fatalidade que o mata.  Não é spoiler, o desfecho é contado no início do filme, sendo que a história é baseada na vida real de Gabriel Buchman, amigo do diretor Barbosa, morto em 2009. Muito se reclama da raiva que Gabriel causa em muitas passagens. Me incomoda alguns diálogos com a namorada dele, que parecem extraídos de algum textão no Facebook, mas particularmente, gosto da decisão do cineasta de mostrar todas as facetas de Gabriel, o que torna o road movie mais complexo. Li gente reclamando da falta de empatia do personagem, como se isso atrapalhasse se comover com sua morte (!?) . Ora, o único filme que precisa de um protagonista carismático é o de super-herói. Essa aqui é uma história de um humano. (Em tempo: como a África é linda!).

Nota: 8/10

As Boas Maneiras, de Juliana Rojas e Marco Dutra (2017).

É triste quando um filme apresenta grande potencial no primeiro ato, mas vai se perdendo tanto que chega ao final de maneira quase risível. Na história, Clara (Isabel Zuaá) é uma estudante de enfermagem que consegue trabalho como uma espécie de pau-pra-toda-obra no apartamento de Ana (a excepcional Marjorie Estiano), mãe solteira nos últimos meses de gravidez. A princípio, a relação entre ambas é somente de patroa e empregada, mas logo se transforma, especialmente em noites de lua cheia. Até aqui tudo bem, a história do envolvimento entre as duas mulheres é carregada de mistério, erotismo e uma comoção que advém da sororidade. O senão fica por conta da guinada na trama que divide a história em duas e transforma o filme num terror tradicional e mal feito, que consegue apagar até bons aspectos que a trama vinha mostrando como maquiagem e efeitos especiais. Até mesmo Isabel Zuaá, tão dona de si no começo do filme vai enfraquecendo conforme chega ao fim. No desfecho fica a impressão que Rojas e Dutra, que dirigiram o excelente Trabalhar Cansa, perderam a mão e conseguiram recuperar quando era tarde demais.

Nota: 5/10

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Categorias:Cinema, Críticas

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