Scoop: o “filme de jornalista” de Woody Allen

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De toda a filmografia de Woody Allen, Scoop – O Grande Furo é a obra que mais referencia o ofício jornalístico. Na história, o cineasta interpreta Sid Waterman, um mágico de segunda categoria que utiliza a alcunha de Splendini e apresenta-se em palcos londrinos. Paralelarmente à Sid, conhecemos Sondra Pransky (Scarlett Johansson), estudante norte-americana de jornalismo. Inexperiente e insegura, ela está em Londres para entrevistar o famoso diretor de cinema Mike Tinsley (Kevin McNally) para o jornal cultural da faculdade.

Em uma folga, Sondra prestigia a apresentação de Splendini e se oferece como voluntária para entrar na caixa chinesa desmaterializadora, um dos truques do mágico. Ela deveria desaparecer, mas em vez disso encontra lá dentro o fantasma do recém-falecido Joe Strombel (Ian McShane). Strombel, quando vivo, era um jornalista da melhor tradição, uma grande honra para o “quarto poder”. Ele não tinha medo de revelar escândalos políticos, de desafiar mafiosos, grandes corporações e até mesmo a realeza britânica (exceto Lady Diana, de quem era um bom amigo). Onde houvesse uma boa história, Joe ia atrás. Seu faro era tão apurado que, mesmo após a sua morte, ele consegue escapar para o outro mundo e passar para Sondra um grande furo: na barca capitaneada pela Morte, estava também a secretária pessoal de Peter Lyman (Hugh Jackman), que acreditava que havia sido envenenada pelo chefe por suspeitar que ele fosse o assassino em série conhecido pela polícia como Assassino da Carta de Tarô, misterioso serial killer que andava matando várias prostitutas de cabelos curtos e castanhos e deixando uma carta de tarô no local do crime.

Sondra é aconselhada por Splendini a contar a história para a polícia, mas o falecido Joe desperta na moça o desejo de desvendar o mistério e quem sabe se tornar a jornalista que desvendou a identidade do maior criminoso inglês desde Jack, o estripador. Então, a bela Sondra inventa um nome fictício, Jade Spencer, e acompanhada de Sid, que finge ser seu pai para ajudá-la a apurar a matéria, dá um jeito de se aproximar de Peter para fazer sua investigação. A partir daqui, não conto mais para não estragar o deleite que é assistir essa comédia despretensiosa.

Joe Strombel e SondraPranski, dois lados da mesma moeda

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Em Scoop, Allen contrapõe dois tipos de jornalistas: um repórter tão dedicado que não consegue resistir a uma boa história nem depois de morto e uma típica “foca”, com ganas de ser uma grande profissional, mas que se perde devido à inexperiência.

O encontro surreal dos dois provoca na jovem a vontade de alcançar o mesmo status mítico do seu congênere, cujo todas as informações vêm cercadas de espanto e admiração, o que nos leva a ter certeza de que Joe era mais que um jornalista, era uma estrela. Podemos dizer, então, que a “imagem” alcançada por Joe e almejada por Sondra é uma reação ao anonimato, uma busca por uma identidade que não os transforme em apenas mais um alguém na redação.

Durante todo o filme, a personagem de Scarlett Johansson é alertada sobre os perigos de se meter com a aristocracia britânica e tem sua escolha profissional posta em cheque por supostamente não possuir um perfil que se espera de um jornalista investigativo. É certo que a imaturidade de Sondra acaba por realmente colocá-la em situações de risco, mas a busca da moça pelo reconhecimento sempre a leva adiante.

Ainda que Woody Allen defina este filme como “uma comédia ligeira, uma sobremesa” no livro de entrevistas Conversas com Woody Allen, ele se aproxima muito do tradicional “filme de jornalista’ por ressaltar estes dois traços: a “estrelização” e a vocação.

Nas entrelinhas, o autor consegue ainda discutir a ética profissional. Colegas de Joe relembram, após seu enterro, que o jornalista nem sempre era correto (ele teria, por exemplo, subornado alguém do Talibã enquanto cobria a Guerra do Afeganistão).

Através de Sondra, a falta de ética é mais evidente: a inexperiente jornalista faz sexo com os dois personagens de suas matérias. O diretor, entretanto, não julga os desvios de condutas dos personagens. Para ele, tal envolvimento dos jornalistas com seu trabalho nada mais é que uma resposta à profunda paixão que eles têm pelo que fazem.

Trailer:

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Categorias:Cinema, Críticas

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