“Dirigindo no Escuro”: uma comédia extraordinária e esquecida de Woody Allen

holl.jpgAdoro quando Woody Allen brinca com o absurdo: imagine um cineasta que fica repentinamente cego, mas insiste em dirigir um filme, sem que quase ninguém saiba de sua condição. É a premissa surreal de Dirigindo no Escuro (Hollywood Ending, 2002). A sacada é criticar a maneira formulaica com que Hollywood administra sua indústria, na qual até um diretor cego é capaz de dirigir um filme.

A brincadeira metalingüística se concentra na história de Val Waxman (interpretado pelo próprio Allen), cineasta de relevância, vencedor de dois Oscars, cujos filmes aos poucos foram perdendo prestígio, obrigando-o a dirigir comerciais de televisão para sobreviver. Sua carreira é ressuscitada quando a ex-mulher Ellie (Tea Leoni), cansada de ser apenas a esposa-troféu do executivo de estúdio Hal Yeager (Treat Williams), bate o pé e o convence a permitir que Val dirija um novo melodrama nova-iorquino.

No entanto, pouco antes do começo das filmagens, devido ao estresse, Val fica cego e ao longo do filme decide fingir que não está para salvar sua carreira (a cegueira é psicossomática, causada por seus conflitos interiores que escolheram aparecer dessa forma, como explica um médico na história). Ele é ajudado pelo seu agente (Mark Rydell), pelo tradutor do fotógrafo chinês do filme (Barney Cheng) e, posteriormente, por Ellie, que ele reconquista.

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O filme de Val Waxman, como era de se esperar, é um desastre incompreensível para o grande público, mas aclamado pela crítica francesa que o descreve como “o melhor filme americano dos últimos 50 anos” (aqui, nota-se um afago de Allen nos críticos europeus que sempre acolheram bem os filmes do cineasta).

Dirigindo no escuro foi recebido friamente pela maioria da crítica especializada, “na vida real”, fato incompreensível para Woody Allen que considera esta uma de suas melhores comédias, como ele conta na série de entrevistas que concedeu à Eric Lax, em Conversas com Woody Allen: “o maior choque pessoal pra mim, de todos os filmes que eu fiz, foi Dirigindo no escuro não ser considerado uma comédia extraordinária de primeira linha. Achei que era uma ideia muito, muito engraçada, e achei que realizei a ideia perfeitamente bem”.

De fato, o longa-metragem de Allen, ao contrário do filme de Waxman, é orgânico e cumpre bem o seu intuito de alfinetar a indústria hollywoodiana (ainda que de uma maneira óbvia). O filme ainda faz observações interessantes sobre a relação da imprensa norte-americana com a indústria de cinema, sendo certeiro em destacar a importância que a crítica cultural tem para os filmes. Afinal, foi a opinião dos articulistas franceses que impediram que Waxman caísse no ostracismo novamente.

Nota: 8/10

Trailer:

 

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Categorias:Cinema, Críticas

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