Como funciona a hibridação visual em “César Deve Morrer”

cesar

No desfecho de “César Deve Morrer”, de Paolo e Vittorio Taviani, o prisioneiro, transformado em ator, quebra a quarta parede e declara: “desde que conheci a arte, esta cela se transformou numa prisão”. A frase é a síntese do filme dos irmãos italianos, uma amálgama de ficção, documentário e teatro.

O filme de 2012 encena uma versão livre da peça “Julio César”, de Shakespeare, na qual os atores são detentos da ala de segurança máxima da prisão de Rebibbia, na Itália. À medida que avança, mostra-se a rotina criativa da produção (escolha de elenco, ensaios, testes de som e luz, e assim por diante) e, aos poucos, a trama de Júlio César e dos próprios prisioneiros se mescla, a tal ponto que, às vezes, se torna difícil distinguir uma da outra, dada a brutalidade das duas histórias. Somos “transportados de volta” para o filme vez ou outra quando uma personagem/detento esquece alguma fala ou usa a linguagem coloquial da Itália do século 21.

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Antes da arte: meros prisioneiros

A ideia do longa-metragem surgiu quando os diretores assistiram o segmento “Inferno” de A Divina Comédia, de Dante de Alighieri, interpretado por prisioneiros reais, alguns reintegrados à sociedade. Todo elenco do filme é composto por estes detentos de Rebibbia. Dessa forma, o filme se desenrola tanto na “realidade” como no campo cinematográfico.

Dizemos que ocorre uma hibridação visual quando há uma mistura de elementos visuais distintos que normalmente não apareceriam juntos numa mesma representação clássica ou moderna devido a convenções e regras estilísticas. Logo, podemos classificar este longa como uma fusão e superimposição de mídias, sendo elas o cinema e o teatro, que não são o mesmo meio de comunicação, mas ambos propõem a apreciação do movimento, da presença humana, da máscara do personagem. Observem que os Traviani transgridem ainda mais o jogo pós-modernístico, quando em determinada sequência os próprios policias transformam-se em espectadores e começam a avaliar o ensaio dos prisioneiros/artistas, que deveriam estar dentro da cela.

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Depois da arte: salvos

A fotografia do filme também é um capítulo à parte, sendo ela própria pode uma superimposição de técnicas: majoritariamente preta e branca, mas colorida quando a peça está sendo encenada de fato. Há apenas outra cena colorizada, quando um detento observa uma pintura na parede da biblioteca da prisão que mostra certa paisagem idílica de uma ilha rochosa cercada pelo mar.

Em resumo, para os Irmãos Taviani, a vida torna-se mais brilhante e expressiva por meio do teatro, da pintura ou de qualquer representação artística. Daí a fala que encerra o filme e inicia este texto.

Trailer:

Para saber mais:

CAUDURO, Flavio V. Pós-Modernidade e Hibridações Visuais. Revista Em Questão, v. 13, n. 2, p. 273-283, 2007.

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Categorias:Cinema, Críticas

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