O filme-incômodo ou por que “Aquarius” perturba

aquariesMuito se fala do escapismo e da superficialidade para questionar a relevância do cinema como a sétima das artes, e em tempos de blockbusters, filmes-pipoca e sequências caça-níqueis (inclusive no nosso cinema) argumentos não faltam para tanto. Ou, no mínimo, se diz, que cinema é só e, somente só, uma diversão passageira, insignificante. De fato, nenhum filme é capaz de revolucionar o mundo, mas eis que surge pertinentemente no Brasil “Aquarius”, um longa que tem ao menos incomodado bastante e com potencial para se tornar símbolo de uma época política e social nebulosa para nosso país.

Foi com alegria que recebi a notícia que Aquarius estava em cartaz comercialmente em Cuiabá. Na nossa capital, filmes alternativos como este são relegados a cineclubes da UFMT ou mostras do SESC Arsenal. Fui assisti-lo com o pé um pouco atrás, pois considero o longa anterior de Kleber Mendonça Filho, O Som ao Redor (disponível na Netflix), pretensioso e arrastado. Acho-o tão abstrato na sua proposta de discutir a herança da “casa grande e senzala” – que continua ditando as regras nas relações da nossa sociedade até hoje – que se torna inócuo para o grande público, parcela esta que deveria ser levada à reflexão através da arte, e compreensível apenas para quem já tem a “mente formada” no assunto.

Felizmente meus receios ficaram para trás. Talvez falte ao novo filme de Kleber uma montagem mais enxuta, mas nada que estrague o prazer de acompanhar a vida de Clara (Sônia Braga), uma jornalista aposentada de Recife, que resiste brava e solitariamente a vender seu apartamento para uma corretoria de imóveis que quer por que quer derrubar o charmoso, bem localizado e antiquado edíficio Aquarius para transformá-lo em mais um arranha-céus da capital de Pernambuco.

Percebe-se mais uma vez que a veia do autor vai continuar pulsando para histórias que retiram a máscara da sociedade de bem brasileira, que procuram desnudar a falsa harmonia que existe entre nós, harmonia que, por sinal, já vem sendo desnudada desde junho de 2013. É nesse ponto que o filme incomoda. O presidente Michel Temer já reiterou várias vezes que deseja a “pacificação do Brasil” e um cineasta que põe o dedo na ferida, que propõe a dúvida, o questionamento, o conflito, não é nada mais que uma pedra no sapato.

Aquarius

De certa forma, Clara é a síntese da população que no momento encontra-se desesperada e desamparada com o novo governo Boi-Bala-Bíblia. Ela é uma também uma artista, escritora de diversos livros. É mulher, dona do próprio nariz (e do resto do corpo inteiro). É liberal, fuma maconha, ama e aceita seu filho homossexual. E é, como diz uma personagem em certa cena, “de pele mais morena”. E são essas classes que estão nas ruas, por que não se sentem mais representadas no poder após conquistaram alguns privilégios e direitos nos governos petistas. Desse ponto de vista, a “pacificação” de Temer é para eles, na verdade, um retorno a uma época que cada brasileiro sabia qual era seu lugar, que a casa grande a senzala eram territórios bem demarcados, que os papéis eram pré-escritos.

Não me espantou que o filme não foi escolhido para representar o país no Oscar. Tem que se aceitar que o Ministério da Cultura agora é deles. O filme escolhido, Pequeno Segredo me parece bem mais a cara da nova administração: o anti-Aquarius, o filme-inofensivo. Posso estar enganado e espero que esteja. Há que se dizer ainda que é bem mais a cara do Oscar também, que valoriza sim o talento, desde que não incomode muito.

Se serve de alento, em 2002, Cidade de Deus não foi escolhido pela Academia para concorrer ao prêmio, mas surgiu com força total no ano seguinte em categorias importantes como direção para Fernando Meirelles. Porém, acredito que o maior legado de Aquarius não seja o reconhecimento da estatueta dourada, mas sim o seu poder de perturbar o próprio poder. E mais, agora divago, a possibilidade de que no futuro, quando se olhe para a história, a arte e a cultura não tenham ficado caladas diante das injustiças.

(Publicado originalmente em 14/09/2016, no site GPS Notícias)

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Categorias:Cinema, Críticas

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